quinta-feira, 3 de abril de 2014

Capítulo #9 : Aconteceu em dois verões.

No verão de Helsinki, as noites têm cara de um interminável fim de tarde. Eu achava engraçado andar por aquelas ruas: já havia estado na Finlândia, mas até aquele verão eu nunca perambulado pela capital. Toda a minha experiência anterior por lá havia sido explorar as pequenas cidades em que a banda tocava, em busca de pizzarias, supermercados, farmácias e lugares pra comprar cigarro.

Mesmo assim, após mais de uma semana na cidade, ainda tudo o que eu conhecia era o comércio cotidiano, bares e nightclubs, sem nem ter parado pra pensar em pontos turísticos. Por isso, ao saírmos do hotel naquela noite de sol, a paisagem da Esplanada foi uma revelação encantadora.

-Aqui é a parte chique da cidade. - ele me disse, e riu.- E onde gente velha e rica vem gastar dinheiro.

Dava pra notar, pelas lojas de grifes consagradas no entorno do largo passeio arborizado e colorido por jardins maravilhosos.

Rosa Moraes 2013
@Esplanada, Helsinki

Mas só passamos rapidamente pela Esplanada. Nosso destino era um barzinho ao ar livre em outra praça, onde um amigo dele estava tocando um stand-up rock bem legalzinho. Ficamos um pouco, bebemos uns lonkeros, conversamos. Ás vezes eu me distraía da conversa para prestar atenção nas pessoas em volta. Um grupo de senhoras tomava sol num canto da praça, enquanto quem estava na sombra às vezes usava um cobertor. Um pai bonitão e desacompanhado jogava frisbee com um garotinho de seus  cinco anos. Um levíssimo burburinho das relativamente poucas pessoas ao redor. Os pássaros cantavam...

Estávamos saindo do pátio quando ele perguntou: "O que você quer fazer agora?" , e eu respondi sem pensar duas vezes: "Karaoke!" . "Eu acho que conheço o lugar perfeito!" - respondeu e começou a caminhar em certa direção. A gente quase nunca andava de mãos dadas - na verdade nenhum casal que eu conheça lá costuma andar de mãos dadas. Os finlandeses são muito cuidadosos com essas demonstrações públicas de afeto e intimidade. É o jeito deles, e eu achava um barato poder zanzar e me aproximar de tudo o que me chamava a atenção, que nem criança solta.

Chegamos no karaoke, pegamos um drink e escolhemos nossas músicas. Procuramos uma mesa ao lado do fumódromo, já que lá também baixaram essa lei que proíbe fumo em locais fechados. De vez em quando, levantávamos para fumar. Eu já estava meio bêbada e escolhi na empolgação, uma música que eu realmente não sabia cantar. Mas estava no party mode, então ainda caprichei na dancinha do "enfia-o-pé-na-jaca". Quando vi que ele estava filmando com o iPhone, quis morrer, mas continuei. Não se sobe ao palco para pedir desculpas, e isso eu aprendi com ele. =3

Quando ele cantou, uma moçoila loura se levantou e veio fazer platéia. Balançou o longo cabelo na frente dele algumas vezes, fez uma reverência e se afastou. Não sei se era fã, amiga, ou se aquilo era a versão finlandesa de um arroubo de periguete, mas foi divertido, anyway.

Fomos para o fumódromo, rindo de nossas performances. Foi aí que eu notei um troço, tipo um envelopão, pendurado na parede.




-O quê é isso?
-É um cobertor de emergência.
-Pra caso alguém congelar? (na minha cabeça de pudim, cobertor é pra esquentar, pô! E a gente tava na Finlândia!)
-Não, pra caso alguém pegue fogo.

Eu devo ter feito uma cara de bola de boliche para a explicação inesperada (pois é, ainda demorou um tempo pro pudim pensar!). Ele permaneceu "séríssimo":

-Acontece mais do que você imagina.



Nisso, uma mulher risonha entrou no fumódromo, e disse algo para ele, que respondeu apontando para mim. A moça sorriu e falou comigo num finlandês rápido e embolado que eu não fui capaz de entender. Mas ele deu o toque e ela imediatamente se desculpou, em inglês. "Não percebi que você não era daqui!" - ela riu. Pediu o isqueiro emprestado, perguntou há quanto tempo eu estava em Helsinki, se estava gostando... essas conversinhas, bem comuns em salas de espera no Brasil, mas um tanto raras entre finlandeses sóbrios. Lá pelas tantas, ela perguntou se nós estávamos juntos.

Ambos ficamos vermelhos na hora. Eu via que ele estava, e eu sentia estar também. Foram longos três segundos de agonia. Ela perguntou para nós dois, ambos abriram a boca para falar ao mesmo tempo, mas ninguém dizia nada.

-Nós estamos juntos... - ele começou, e nós completamos ao mesmo tempo.- ...agora.
Mas nos conhecemos há mais de dez anos. - ele continuou.
 O sorriso da moça voltou a se acender.
-Ah, então vocês pensam em casar... ter filhos..? 

Olhávamos um para o outro, incrédulos. A moça continuava sorridente, como se fosse a coisa mais normal do mundo, chegar para um casal de estranhos e ficar com esse papo de tia-avó quando apresentamos o namorado na véspera de Natal.

Aí que rolou a coisa mais engraçada: a moça se aproximou de mim e começou  a me convencer : "Poxa, dá uma chance para o moço... ele é bonito, parece ser uma boa pessoa...olha, eu nem o conheço, mas eu tenho certeza que ele é uma boa pessoa. Vocês supercombinam, têm tudo a ver...você devia casar com ele sim!"

A situação foi tão awkward, tão bizarra, que eu nem lembro direito o que rolou depois. A gente riu, ela terminou de fumar e se despediu me falando pra pensar no caso... algo assim. Sei que ela saiu antes da gente, e nós saímos rindo, um pouco depois:

-Isso foi...BEM estranho..! -comentamos, quase ao mesmo tempo, entre risadas. Que precederam um longo e previsível silêncio. Claro, nos dias subseqüentes, comentamos o episódio com amigos, fizemos piadinhas, pensamos em um monte de respostas ótimas que poderíamos ter dado. Mas ao passar dos dias, semanas e meses, já não era uma história que estivesse tão fresca na minha cabeça.

Por isso foi tão surpreendente quando, poucos dias mais ou menos de um ano depois, ficamos abismados de passar pela mesmíssima situação. Mas dessa vez em um clube em Oulu, norte da Finlândia. Um completo estranho se aproximou da gente, puxou um papo qualquer e logo começou:

-Vocês deveriam se casar. Vocês são perfeitos. Um cara rock and roll e uma garota que combina.

Cheguei a perguntar para uma amiga em comum, dias depois, se éramos assim tão sortudos, ou se os finlandeses são malucos assim mesmo.

-Os dois. - ela respondeu, sem fazer grande caso, como nunca fazia com nada. - Somos malucos e você sabe como podemos ser espontâneos e empolgados depois de beber...Mas realmente, nunca tinha ouvido uma história assim, não.

E sorriu.

-Vocês formam mesmo um casal muito bonito. A história vai sendo escrita.

Concordei com o olhar e o silêncio. Ela tinha razão. A história estava sendo escrita, ali.

21:29 @ verão finlandês.


























2 comentários:

  1. Confesso que leio e fico super curiosa sobre quem és e sobre quem é ele. hahahahhaha
    Se tá na cara, sou lesa. Beijo! Gosto muito do seu blog, me divirto lendo.

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    1. Oi, Carolyne! Seja sempre bem vinda!
      Na verdade, não tem muito mistério sobre mim. Sou uma pessoa absolutamente sem influência, que por acaso conseguiu lugar de camarote para observar o espetáculo que é a vida fora do palco. E a missão desse blog é justamente refletir essas experiências: mesmo quando estou falando de bandas que ninguém mais parece conhecer ou aborrecendo os leitores com posts aparentemente meio sem-noção.
      É claro que, quem me conhece há mais tempo, já lê esse blog diferente. :3 . Mas não se preocupe, que não está nada na cara, e nem tem segredo, você vai ver...

      ...é só continuar lendo. ;)

      Beijinho!

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