terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Era uma vez...

(Ok, muita gente tem me pedido para eu contar uma história. Curiosamente, são as mesmas pessoas que eu acho que já deviam estar mais de saco cheio de ouvir minhas histórias. Então, como eu estava prestes a escrever um "causo" pra minha colega aqui, e essa é uma dessas histórias que eu repito mil vezes, acho justo compartilhar.)

Helsinki, Finlândia. Julho de 2013. Nessa época é verão, e o sol brilha até altas horas da noite. Eu estava esperando o boy magia sair do estúdio, por volta das 21h. Mas ele ligou, disse que tiveram algum tipo de problemas e iria demorar um pouco mais. Ok. Eu estava bebendo com um amigo que teve que voltar pra casa, então eu voltei pro meu apartamento, pensando em tomar um banho e dar um tapa no visual.

Só que eu tinha bebido demais... e, depois de me vestir do jeito mais piriguete cintilante que eu consegui, com um vestido pink da seção teen da C&A , acabei deitando no pufe da sala e capotando.

Ainda tá escrito "GLA MOU ROSA com strass preto na frente, tá?
Acordei com o telefone esgoelando na minha orelha. O bonitão pediu desculpas pelo atraso e disse que estavam indo para um bar no centro da cidade, que eu deveria encontrá-los lá. Desamassei minha cara e olhei no relógio, já era mais de uma da manhã, estava escuro. Nada de metrô.

-E como eu chego aí à essa hora? -perguntei, ainda meio dormindo.
-Pega um táxi, ué!

Ah, meu...que mané pegar táxi...Eu estava na Finlândia, o lugar ficava a uns 15 minutos de caminhada a pé, no máximo. A gente havia voltado a pé do centro na noite anterior, e também já havíamos feito pretty much o mesmo caminho voltando da casa de uns amigos no verão passado.Não tinha erro.


 Mas como eu me conheço, resolvi levar meu tablet comigo. Assim, se eu me perdesse,teria a chance de me achar no Google Maps , ou algo assim. Mas  e se eu não tivesse conexão?

Nesse caso, eu que sou muito esperta, tirei um print screen da descrição do caminho. O mapa confirmava minha teoria de linha reta. Não tinha erro. Caminhando rápido, eu chegaria lá à salvo num instante.
Eu sou mesmo muito esperta.

Tudo bem que, na pressa, eu esqueci meu tablet no apartamento, mas eu não notei isso até perceber que eu já estava caminhando havia mais de uma hora, sem nem sequer sinal de uma vizinhança conhecida. Muito antes disso, quando eu caminhava havia apenas uns dez minutos, o delícia ligou, perguntou se eu ia demorar. Eu disse que estava indo a pé e olhei em volta para reconhecer as imediações. Parecia realmente que eu já avistava a ferroviária, então, eu disse que estava chegando. 

Mas isso fazia mais de uma hora, e então eu percebi que caminhava absolutamente sozinha, por uma rua que começava a ficar escura e parecia acabar em lugar nenhum (me senti como o Bob Esponja naquele episódio da Fenda da Pedra.
Mais ou menos assim.
 Pois é, essa era a vibe quando eu notei, ali na luz, dois homens examinando os trilhos do bonde. Eles usavam capacetes de segurança e coletes refletores, essa coisa toda. Um era careca, o outro era loiro de cabelos compridos, tipo os caras do Teräsbetoni, só que mais "sambadões". De qualquer forma, eram mais fortes que eu e estavam em dupla. E só tinha a gente na rua, e eu estava completamente perdida.

Entreguei na mão de Deus e dei "boa noite", em inglês, com aquele sorriso de todos os dentes. Eles me olharam, meio desconfiados. Eu disse que precisava chegar à rodoviária, e o cabeludo disse "No english, sorry, sorry!"

Puxa, aquela eu não esperava. Olhei em volta mais uma vez. Absolutamente ninguém. Ficamos em silêncio por um instante. E eu vi que não ia ter jeito: soltei meu finlandês tapióquico, que deve ter soado mais ou menos como "mim perdida, estação de trem, socorro!"

-Puhutko suomea? - o cabeludo se animou.
-Ymmärrän vähän... - e nessas os fortes sacam o nível de finlandês..*ugh*

"-Você está longe pra caramba..!" - o moço coçou a cabeça. O careca riu. -"Uns seis quilômetros"

Isso eu entendi.Aparentemente eu fui andado a tal linha reta por seis quilômetros...na direção errada. Tentei explicar que queria um taxi. Eles entenderam, mas ninguém tinha o número da central. E provavelmente nenhum táxi iria vagar por ali àquelas horas.

 Os três ficamos em silêncio, não houve conversa nem entre os dois homens, que se entreolhavam. Eu já estava agradecendo e me resignando a voltar pra avenida e procurar um táxi, quando eles me fizeram um sinal para seguí-los. O careca passou na frente e abriu a porta do caminhão para mim. O cabeludo me deu a mão e me ajudou a subir. E eu acabei indo meio de Cinderela, no caminhão de serviço.

A imagem é meramente ilustrativa, mas vocês pegaram a idéia. Aquele caminhão ainda tinha escadinha na lateral, bandeirinha vermelha na ponta, giroflex. Imagina chegar com um negócio desse na balada, com toda a pompa e circunstância, vestida pra arrasar. Foi a primeira vez que, ao invés de pedir meu RG, o segurança da porta me ofereceu um sorriso. E eu ainda fui, saltitando magnânima pelo bar adentro, sob todos os olhares, até parar na mesa mais rockestrelada do babado, esbaforida, contando essa mesma história que eu acabei de contar, entre goles de cidra.

"-Eu disse para você pegar um táxi..!"

Que mané táxi. Foi a melhor noite da minha vida.









2 comentários:

  1. Hahahhahaahha só vc mesmo, comadre!!

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    1. Melhor chegar de caminhão se serviço na balada do que sair dela de camburão, diz aê! XD

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